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Bragança Aqui

Bragança: a cidade das portas em terras de Sefarad

Por: Sara Geraldes

 

Bragança é conhecida como sendo uma cidade de portas. A principal será a que se relaciona com o fluxo de pessoas e bens, pela sua proximidade à fronteira com Espanha. Mas há muitas outras portas associadas à capital do nordeste transmontano e que, muitas vezes, parecem passar despercebidas à maioria dos habitantes.
Não é à toa que a importância das portas inspira as mais recentes estruturas da cidade, quer seja pela sua representação em rotundas, quer pela remodelação de um edifício, junto aos paços do concelho, que pretendia, na altura da sua inauguração, servir de porta de entrada aos turistas, tendo mesmo uma enorme porta de ferro a ornamentá-lo e um restaurante, baptizado com o nome “Porta”.
De onde vem esta obsessão pelas portas? Poderão existir várias teorias e alguns até as relacionam à maçonaria mas, a menos de um mês do congresso “Terras de Sefarad - Encontros de cultura judaico-sefardita”, ocorre-me um regresso ao passado, influenciado pela herança dos sefarditas.
Quem foram os sefarditas? Os descendentes de judeus que se refugiaram na Península Ibérica. É certo que Bragança teve uma importante comunidade de judeus e, aproveitando a importância que o estudo desta influência está a ter no país, impulsionado, sobretudo, pela Rede de Judiarias de Portugal, uma associação de carácter público mas de direito privado, importa abrir as portas para tentar entender um pouco da história do nosso passado.
Ao folhearmos o livro “As Judiarias de Portugal” (disponível para consulta e requisição na Biblioteca Municipal de Bragança), de Maria José Ferro Tavares, percebemos um pouco melhor a importância do tema e os vestígios da presença sefardita em Bragança.
A autora afirma mesmo que Bragança “teve o mais antigo núcleo de habitantes judaicos conhecido na região”. Apesar de se “desconhecer o sítio seguro da judiaria”, é apresentada no referido livro uma “hipótese de localização que advém da leitura e interpretação da escassa documentação”, considerando “improvável”, a hipótese de que esta se localizaria na Rua Direita ou Rua dos Combatentes da Grande Guerra, defendida na tradição oral.
Há vários elementos que levam a autora a indicar que a judiaria se localizaria dentro de muralhas, apontando a actual Rua das Flores como a localização mais provável. É ainda muito provável, segundo esta investigação, que “a judiaria de Bragança ou parte dela se estendesse pelo arrabalde ‘dentro dos arcos’, devido ao aumento da população”.
Mais uma vez, as portas adquirem especial importância na história da cidade. É claro para Maria José Ferro Tavares que a presença judaica se concentrou “no prolongamento da Rua Direita da Porta da Vila, ou seja, Na Rua Larga ou Costa Grande (actual Trindade Coelho) e circuito à volta da muralha e sua cava, onde se instalaram os ourives e prateiros, e que hoje é designada por Rua do Santo Condestável".
Há referências a várias portas que não sobreviveram até aos dias de hoje, como o caso da Porta de S.Bento, daí a dificuldade em localizar com precisão a sinagoga ou outras estruturas relacionadas com o judaísmo. “Bragança teria tido três corpos de muralhas de que só o mais antigo ainda hoje permanece”, tendo as restantes ficado “em ruínas, com as investidas espanholas”.
Ainda que possam existir várias teorias e teses de investigação, parece-me importante compreender a influência sefardita, tanto na nossa cultura como no nosso património. Abrem-se agora várias portas para esse estudo: o congresso, o recém inaugurado Centro de Interpretação da Cultura Sefardita e outras iniciativas que, certamente, contribuirão para a abertura de “portas” e mentalidades.

 

Porta da Vila

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Portas 1.jpg

 

Portas 2.jpg

Fotos: Foto 1: Porta da Vila. Fonte:http://www.minube.pt/fotos/sitio-preferido/160821/425837. Foto 2: Porta da Rota da Terra Fria (Restaurante Porta). Fonte:http://cozinhasemfiltro.blogspot.pt/2016/05/restaurante-porta-by-eurico-castro-no.html. Fotos 3 e 4: Rotunda das Cantarias, Rotunda do Centro de Saúde da Sé. Fonte: Município de Bragança (http://www.cm-braganca.pt/pages/426). 

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